Processamento não térmico de alimentos – Impacto na estabilidade dos produtos e na aceitação do consumidor

Na indústria alimentar, novas tecnologias de processamento são continuamente avaliadas quanto à sua viabilidade comercial, impulsionadas pela necessidade de melhorar a qualidade, segurança e vida útil dos produtos, enquanto se responde às exigências crescentes dos consumidores, cada vez mais atentos a questões de saúde e sustentabilidade. Entre os avanços mais promissores destaca-se o desenvolvimento de tecnologias de processamento não térmico de alimentos (NTP), que têm demonstrado vantagens significativas face aos métodos convencionais. Estas tecnologias apresentam menor impacto ambientalreduzem custos operacionais e preservam melhor as características sensoriais e nutricionais dos alimentos.

Prevê-se que o mercado global de NTP cresça a uma taxa anual composta (CAGR) de 8,4% até 2030, com destaque para o segmento da carne e dos produtos do mar, que deverá representar a maior quota de mercado.
As principais tecnologias NTP incluem os campos elétricos pulsados (PEF), o processamento por alta pressão (HPP), os ultrassons (US), a radiação ultravioleta (UV) e o plasma frio. Estas abordagens inovadoras melhoram a segurança microbiológica dos alimentos sem os efeitos adversos associados aos tratamentos térmicos, como perdas de cor, sabor, textura ou valor nutricional.

Esta evolução tecnológica está fortemente associada à crescente procura por alimentos crus ou minimamente processados, em linha com estilos de vida saudáveis. A própria Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) reconheceu, em 2022, que o HPP não apresenta preocupações adicionais de segurança microbiológica ou química em comparação com métodos tradicionais como a pasteurização. Além disso, estas tecnologias contribuem para a extensão da vida útil dos produtos e para a sua maior estabilidade, permitindo à indústria alimentar responder às exigências regulatórias e às expectativas do consumidor.

Contudo, mesmo produtos altamente nutritivos e tecnologicamente avançados podem encontrar resistência no mercado caso despertem preocupações éticas, ambientais ou de segurança, ou se não forem sensorialmente apelativos. Muitas inovações falham comercialmente devido à insuficiente compreensão da perceção dos consumidores. Dado o caráter conservador e cético que muitos consumidores assumem perante novidades, é essencial investigar, desde as fases iniciais de desenvolvimento, os fatores que influenciam a sua aceitação. A realização de estudos de mercado torna-se, assim, fundamental para garantir que os novos produtos não apenas cumpram os requisitos técnicos, mas também estejam alinhados com as preferências e valores do público-alvo.

Tecnologias de processamento não térmico de alimentos aplicadas na sua conservação


A seguir, apresenta-se uma síntese das principais tecnologias de processamento não térmico de alimentos e do seu potencial impacto na estabilidade e vida útil dos produtos:

 
1. Campos Elétricos Pulsados (PEF):

Aplicados sobretudo a líquidos e emulsões (ex.: sumos, leite).
Induzem a permeabilização das membranas celulares microbianas, promovendo a sua inativação.
Prolongam a vida útil sem alterações sensoriais significativas.

 2. Processamento por Alta Pressão (HPP):

Utiliza pressões até 600 MPa em alimentos embalados.
Inativa microrganismos patogénicos e deteriorativos sem recurso a calor ou aditivos.
Preserva a frescura e o valor nutricional de frutas, vegetais, carnes e laticínios.

3. Ultrassons (US):

Ondas sonoras de alta frequência provocam cavitação, destruindo células microbianas.
Quando combinados com outros métodos (ex.: aquecimento moderado), potenciam a segurança e prolongam a vida útil.

4. Radiação Ultravioleta (UV):

A radiação UV-C (254 nm) é eficaz na desinfeção de superfícies alimentares e líquidos.
Reduz significativamente a carga microbiana, aumentando a estabilidade microbiológica.

5. Plasma Frio:

Gases ionizados a baixa temperatura eliminam microrganismos em superfícies.
Tecnologia emergente, com elevado potencial, sem gerar resíduos químicos.

Processamento não térmico de alimentos
Tecnologias de processamento não térmico de alimentos mais utilizadas na indústria.

Estas tecnologias inovadoras, ao preservarem melhor as características organoléticas e nutricionais dos alimentos e reduzirem o risco microbiológico, oferecem soluções promissoras para prolongar a vida útil dos produtos, minimizando a necessidade de aditivos e aumentando a aceitação do consumidor. O futuro do processamento alimentar aponta para métodos mais sustentáveis, seguros e de elevada qualidade nutricional.


Neste contexto, a Mérieux NutriSciences encontra-se disponível para colaborar com empresas do setor alimentar, oferecendo serviços de validação de processos e assessoria técnica relativamente ao impacto que cada uma destas tecnologias poderá ter na durabilidade dos produtos.

Fontes Bibliográficas:


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